A Funcionalidade “Ajuda” no processo de Autoaprendizagem de CAQDAS: O Caso do webQDA

  • Fábio Freitas
  • Francislê Neri de Souza
  • António Pedro Costa

Resumo

A exigência inerente à produção científica leva-nos, em muitos casos, a depender de ferramentas tecnológicas para o apoio de análise dos dados, tais como os Computer Assisted Qualitative Data Analysis (CAQDAS). Todavia, a aprendizagem destas ferramentas pode-se afigurar como um desafio para os investigadores, sendo esse processo muitas vezes realizado autonomamente pelos investigadores. Nesse sentido, o software webQDA disponibiliza aos seus utilizadores a funcionalidade “Ajuda”, como suporte à autoaprendizagem do seu aplicativo. Este estudo procurou compreender de que forma esta funcionalidade apoia os utilizadores no processo de autoaprendizagem. Para tal, foi realizado um workshop de avaliação com 22 participantes, tendo sido possível verificar, uma significativa satisfação por parte dos utilizadores, sendo a clareza das instruções e o grau de usabilidade da “Ajuda”, como os elementos mais valorizados positivamente. Assim, é possível inferir que a “Ajuda” no webQDA aparenta ser uma funcionalidade viável para o apoio à autoaprendizagem do seu software. Objetivo. O presente parece-nos impelir a uma autonomia na realização das mais variadas tarefas, desde as compras num supermercado, passando pelo abastecimento de combustível. É o “faça você mesmo”, onde somos desafiados a realizar tarefas que no passado eram realizadas por terceiros. Desta forma, o processo de aprendizagem autónoma apresenta-se como um requisito cada vez mais essencial na sociedade atual.  Contudo é pertinente referir que aprender a aprender exige propósito, esforço, disciplina e responsabilidade, contrariando a ideia equivocada de que se trata de um processo simplista, fácil e superficial, revelando-se um meio fundamental para a progressão e bem estar pessoal e social (Lima Santos & Gomes, 2009). Assim, pode-se declarar que a autoaprendizagem reflete a adotação da responsabilidade da própria aprendizagem, “marcada pela construção individual do conhecimento, no intuito de garantir o desenvolvimento pessoal e uma melhor adaptação a um ambiente em contínua mudança” (Albuquerque Costa, Viana, & Cruz, 2011, p. 1614).O presente estudo apresenta-se com uma reflexão à forma como as ferramentas de autoaprendizagem, especificamente a funcionalidade de “Ajuda”, apoiam os utilizadores no processo de autoaprendizagem das principais operações de um CAQDA, neste caso específico o software de análise qualitativa webQDA. Para o efeito foi realizado um workshop de avaliação e aprendizagem no qual participaram 22 utilizadores (sem experiência com CAQDAS), com o objetivo de recolher dados que possam dar resposta a esta questão. Método. Este estudo assentou eu dados obtidos durante a realização de um workshop de avaliação e aprendizagem do webQDA num campus universitário e restrito a quem nunca tivessem trabalhado com CAQDAS, tendo-se inscrito 22 participantes. Este workshop durou duas horas e consistiu na execução de cinco tarefas, as quais os participantes deveriam realizar socorrendo-se da funcionalidade “Ajuda” do webQDA. Após a realização de cada tarefa os participantes deveriam descrever no “Diário de Bordo” do webQDA, a sua opinião em relação aos pontos positivos, negativos e aspetos a melhorar, relativos à forma como a funcionalidade “Ajuda” os apoiou na aprendizagem e na execução da respetiva tarefa. Estes dados foram posteriormente sujeitos a análise para este estudo. A cinco tarefas realizadas no workshop consistiam em: Tarefa 1 – Importação de Fontes; Tarefa 2 – Classificação de Fontes; Tarefa 3 – Criação de Códigos Árvore; Tarefa 4 – Codificação de Fontes; Tarefa 5 – Pesquisa de Palavras Frequentes e Criação de Nuvens de Palavras. Os participantes do workshop caracterizavam-se por 77% (n=17) de mulheres e 23% (n=5) de homens, tendo idades compreendidas entre 20-30 anos (45%, n=10), 32% (n=7) entre os 31-40 anos, 18% (n=4) entre os 41-50 anos e 5% (n=1) entre os 51-60 anos. Caracterizavam-se ainda por 64% (n=14) serem estudantes, 13,5% (n= 3) eram docentes, 9% (n=2) eram investigadores e 13,5% (n=3) tinham outras atividades. Quanto à formação académica existiu uma percentagem igual, 36% (n=8) para alunos que estavam a realizar o mestrado e doutoramento, 13% (n=3) tinham licenciatura, 10% (n=2) tinham doutoramento concluído, e apenas 5% (n=1) estavam a realizar a licenciatura. Resultados. Verificou-se que os participantes do workshop demonstraram uma satisfação geral em relação à utilização da funcionalidade “Ajuda”, havendo quase tantas referencias a aspetos positivos desta funcionalidade (88 referências) quanto ao total das referências a aspetos negativos e de sugestões de melhoria.  Pontos Negativos. Nos aspetos negativos constatou-se que os utilizadores sentiram limitações nas instruções na funcionalidade “Ajuda”. Verificar que consoante os participantes avançam na execução das tarefas, o número de referências positivas diminui, enquanto tendem a aumentar no número de referências negativas. Estes dados, aparentemente contraditórios, podem ser explicados pelo possível aumento da complexidade das tarefas. A usabilidade foi igualmente apontada como um dos mais negativos (13 referências). Estes dados supostamente contraditórios podem ser explicados na medida em que, por muito que a usabilidade esteja presente nas funcionalidades dos CAQDAS, o utilizador pode nunca sentir satisfeito caso não tenha noções básicas sobre investigação qualitativa. Esta ideia é reforçada por Gilbert, Jackson e Gregorio (2014), ao afirmarem que o recurso aos CAQDAS, além de exigir conhecimentos gerais informáticos, exigem uma clara compreensão dos métodos de investigação qualitativa. Esta mesma questão é abordada por Gilbert (2006), ao classificar os utilizadores mediante os seus níveis de capacidade, seja enquanto investigadores seja enquanto utilizadores de computadores. Sugestões de Melhoria. Nas sugestões de melhoria foi possível verificar que a maioria das referências (25) diziam respeito a sugestões que não se aplicavam à funcionalidade “Ajuda”. Contudo, se nos alhearmos desses dados, verificamos que, uma vez mais, as dimensões “Instruções” e “Usabilidade” foram as que mais referências apresenta (Instruções 17 referências e Usabilidade 8 referências). Este facto parece reforçar importância que estas duas características têm o processo de aprendizagem de CAQDAS. Conclusões. Perante os dados apresentados, pode-se considerar que a funcionalidade de “Ajuda” do webQDA revela-se como um instrumento válido para o processo de autoaprendizagem, sendo possível constatar que todos os participantes conseguiram realizar a maioria das tarefas recorrendo unicamente a esta funcionalidade. As referências positivas à funcionalidade “Ajuda”, parecem demonstrar que os utilizadores apreciaram a forma objetiva como as instruções são apresentadas, bem como a simplicidade de processos na utilização da mesma, um facto associado ao satisfatório indicie de usabilidade. Porém foram identificadas melhorias na “Ajuda”, essencialmente nas instruções de algumas das operações.

 

Publicado
2019-09-25