A(s) imagem(ns) de destino construída(s) sobre a região Alentejo Litoral/Sudoeste a partir da experiência de participação no festival MEOSUDOESTE

  • Sandra Saúde
  • Ana Isabel Rodrigues

Resumo

Objetivos do estudo. O objetivo central do estudo em que se baseia este artigo é o de caracterizar a(s)imagem(ns) de destino construída(s) pelos festivaleiros acerca da região Alentejo Litoral/Sudoeste tendo por base a experiência de participação no festival (MEO)Sudoeste. Em concreto, procurou-se identificar:

  1. se a ida ao (MEO)Sudoeste influenciou a imagem que o festivaleiro passou a ter sobre a região e de que forma caracteriza a imagem que tem agora;
  2. três características que tornam, segundo o festivaleiro o Sudoeste/ Alentejo Litoral único e diferente.

O estudo realizado tem por base a teoria de imagem de destinos (ID), em particular, o trabalho proeminente desenvolvido por Hunt (1975) e que foi decisivo para a materialização dos estudos de ID ao afirmar que “through traveller’s perceptions we can learn more about how land qualities become tourism resources.” (p.1).

Mais de duas décadas passadas desde a sua primeira edição em 1987, o festival (MEO)Sudoeste é considerado um dos mais antigos e mediáticos festivais de música realizados em Portugal. O festival decorre na Herdade da Casa Branca, localizada na Zambujeira do Mar, atualmente freguesia de São Teotónio, no município de Odemira em pleno Alentejo Litoral (Portugal). O festival não é apenas um festival de música, é um festival de verão associado às férias, à praia, ao sol e ao campismo, tudo incluído num “pacote de diversão” especialmente dirigido aos jovens, e que constituí atualmente a sua “imagem de marca”. Todos os anos, o festival atraí ao território de Odemira/Zambujeira do Mar milhares de festivaleiros (na edição de 2017, a que com base na qual foi efetuado o estudo, foram ao total 200.000 os espetadores: de acordo com a Associação Portuguesa de Festivais de Música (APORFEST)), constituindo um dos eventos realizados, em todo o Alentejo Litoral, que mais visitantes atraí. O festivaleiro típico do (MEO)Sudoeste não é natural da região (90% não são naturais do município de Odemira; 20% são estrangeiros, destacando-se os de nacionalidade espanhola), é do sexo masculino (57,1%), tem idade compreendida entre os 19 e 24 anos (53,4%) ou os 14 e 18 anos (28,9%) e é a primeira vez que vem ao festival (70,1%), tendo adquirido para o efeito (70,6%) o “Passe 5 dias (bilhete + campismo)” (Saúde, Lopes, Borralho & Féria, 2019).

Método. No estudo desenvolvido seguiu-se uma abordagem exploratória suportada na aplicação de um questionário (via online), estruturado em questões de natureza fechada e aberta. Foram recolhidas e analisadas as respostas, de natureza qualitativa e quantitativa, dadas por uma amostra de 122 festivaleiros, em junho de 2018, 11 meses após a sua participação na edição de 2017 do festival. Os dados de natureza quantitativa foram analisados através de estatística descritiva. Os dados de natureza qualitativa, e que constituíram a base essencial dos dados, foram analisados através de análise de conteúdo categorial temática (Bardin, 2010) em que se procurou identificar as categorias de significado estruturantes das imagens construídas pelos festivaleiros sobre a região. A abordagem analítica foi primeiro exploratória e depois descritiva assente em dois momentos que decorrem da utilização combinada (numa relação de complementaridade) de dois CAQDAS (Computer-Assisted Qualitative Data Analysis Software):

  • 1º momento: Utilização do CAQDAS T-LAB com o objetivo de realizar uma análise exploratória do corpus, extraindo as primeiras ideias, procurando perceber a relação entre palavras e palavras-chave;
  • 2º momento: Utilização do CAQDAS webQDA com o objetivo de organizar e sistematizar o pensamento resultante da fase anterior, tendo por base uma análise dedutiva, baseada nas dimensões de perceção e imagem, usando a tipologia de classificação proposta por Beerli e Martin (2004). Foi feita a fase de codificação e interpretação, seguindo o método dedutivo.

A utilização combinada de 2 CAQDAS justifica-se pelo facto de terem potenciais analíticos complementares, um mais na componente exploratória dos dados e outro mais na dimensão da ajuda à interpretação holística do significado dos mesmos.

Resultados. No que respeita às imagens que os festivaleiros assumiram que passaram a ter sobre o Sudoeste/Alentejo Litoral após a ida ao MEOSUDOESTE, 85,2% assumiu que passou a ter uma imagem mais positiva da região. Para caracterizar a imagem que têm atualmente da região Sudoeste/Alentejo Litoral, os festivaleiros inquiridos estruturaram as suas respostas maioritariamente em torno da ideia central de ter boas, bonitas e ótimas praias. Também estão associadas às imagens partilhadas, embora com significância menor, itens como: animação/diversão, meosudoeste que ajudam a construir uma atmosfera/ambiente e umas férias que consideram ótimas/ótima/ótimo e de que gostam. Em relação às três características que, segundo os festivaleiros, tornam a região única e diferente, em Portugal destacam-se, claramente: as praias, a natureza, o pôr-do-sol, elementos da paisagem distintivos que se combinam com boa animação e/ou gastronomia.De acordo com a teoria, as ID apontam para imagens holísticas, constituídas por vários atributos de imagem, não se cingindo a um número reduzido. Face aos resultados apurados não é claramente o que se verifica nas ID partilhadas pelos participantes no estudo: há elementos distintivos do território que não emergem nas imagens partilhadas cingindo-se à ideia predominante de existirem “bonitas praias”, acompanhada, apenas numa segunda linha de relevância, por outro atributo natural como “o pôr-do-sol”. Embora haja referências a “ambiente autêntico”, “hospitalidade das suas gentes” e de “uma certa diferenciação em relação a outros destinos como o Algarve”, as mesmas são muito pontuais, não havendo referências objetivas ou subjetivas a outros identificadores do património e identidade turística da região.

Conclusões. Os resultados apontam assim para a existência de ID muito influenciadas e condicionadas pela relação muito específica e esporádica que o evento “permite” que os festivaleiros tenham com o território fora do recinto do festival. Esta visão enriquece a reflexão que pode e deve ser feita pelos distintos atores regionais, entre os quais se destaca o Município de Odemira, sobre o real contributo do festival na promoção e valorização da imagem da região, para assim, poderem, em conformidade, adaptar/adequar as respetivas estratégias de promoção e divulgação do destino.

Publicado
2019-09-25